
Em um dos bares do Rio Vermelho, o estudante de jornalismo João (nome fictício), 19 anos, aguarda a chegada de uns amigos. Entre eles, Miguel, 22, e Carolina, 20 (nomes também fictícios). Nenhuma novidade, não fosse o fato de João estar namorando Miguel há dois meses. Antes disso, manteve um relacionamento com Carol por quase um ano. Apesar da troca, continuam todos amigos. "Eu quero ter a liberdade de namorar quem eu queira, independente do sexo. E também não suporto ser classificado de bi, homo ou heterossexual. Não preciso me classificar em nada", dispara.
Embora despercebida ou dissimulada pela maioria dos pais, uma inegável mudança está se passando na sexualidade dos jovens e adolescentes no final dos anos 90. Profissionais ligados ao assunto afirmam, inclusive, que o mundo vive um momento propício ao desenvolvimento do comportamento bissexual. "Com as mudanças culturais pelas quais passa o mundo e a reestruturação dos papéis familiares, pode-se perceber, seguramente, que a bissexualidade está em alta. E os jovens vão manifestar isso", afirma a psicanalista Roberta Freyre Magalhães.
"Não é que o fenômeno seja propriamente novo, embora se possa enumerar razões que geram efetivamente um aumento do comportamento, mas hoje há mais liberdade para se expor em relação ao assunto", complementa.
O tema, contudo, ainda permanece obscuro sob o manto do preconceito e dificilmente freqüenta as conversas na hora do jantar. Prova disso é o fato de que nenhum dos jovens entrevistados para esta reportagem concordaram em se expor publicamente. "Eu sei muito bem o que quero mas não vou me oferecer de bandeja para o preconceito, porque sei como a sociedade funciona e eu preciso dela para sobreviver", conta a estudante de direito Ana (nome fictício), de 22 anos.
"Eu nunca tinha namorado menina alguma até que fui a um show e conheci a Maria. Na hora bateu o olhar. E eu posso dizer com segurança que estou profundamente apaixonada", diz. Hoje, segundo ela conta, a mãe, a avó e as tias já sabem e apoiam sua opção. "Minha mãe pergunta como vai o namoro e me empresta muitas vezes a chave de nossa granja para eu passar o fim de semana com ela", diz. "Meu pai, que não mora comigo, é que ainda não sabe. Eu temo ainda por isso", fala.
Reação diferente teve a família do ator Pedro, 23 anos. "Minha mãe pensou logo no que as amigas iriam falar de mim e chegou a questionar a minha saúde mental. Hoje, ela até que tolera quando eu estou com um namorado mas fica realmente aliviada quando apareço com uma menina", diz. "Depois, quase ameaçou se matar quando eu disse que iria aparecer no jornal assumindo a minha bissexualidade. Por isso, preferi o anonimato nesta matéria", diz ele.
Pedro diz que é diferente a relação entre homens e com mulheres mas não sabe comparar. "Há momentos em que o meu interesse é unicamente masculino e depois fica feminino. Mas não é uma questão de ciclos. É que, quando você é seduzido por uma pessoa, o sexo dela acaba sendo um detalhe", explica.
Um experiência traumática com a bissexualidade foi o que teve Miguel, 22. "Eu estava totalmente apaixonado quando a menina virou para mim e falou que simplesmente não conseguia ficar só comigo. Disse que me amava mas sentia também falta de mulheres", conta. "Eu não suportei o jogo duplo e acabei o namoro". Depois disso, ele namorou mais duas garotas. Ambas se revelaram bissexuais.
Como fato comum em relação a todos os jovens de comportamento bissexual, está a rejeição em se enquadrar em velhos estereótipos. "Quando eu comecei a sentir desejos por meninas eu tive logo medo de virar aquilo que se chama de sapatão. Depois eu vi que posso continuar feminina e namorar mulheres", diz Patrícia, 20, estudante de música. "E não quero de forma alguma excluir a possibilidade dos meninos", complementa.
O irmão dela, Antônio, 24, também é bissexual e concorda com a irmã. "Há um fato biológico que eu não posso negar: eu sou homem. Não quero mudar isso, adoro o meu corpo. E isso independente de estar namorando um homem ou uma mulher", opina. "Além do mais, eu respeito todo mundo, mas acredito que a afetação é uma maneira de fortificar o preconceito. É como se a sociedade dissesse: você pode ser diferente mas tem que ser de uma maneira ridícula e risível para ficar bem marcado", acredita.
Os nomes de alguns entrevistados desta reportagem são fictícios.